“Estamos falando de um momento de ruptura que é global e que não tem volta. Ou as empresas se adaptam ou elas não terão oportunidades de fazer negócios com parceiros de qualidade”. É assim que Maria Cristina Lepikson, líder de Conformidade na Odebrecht, resume o momento de adaptação que as grandes empresas vivem no ambiente de negócios.

Com mais de 25 anos de experiência profissional e carreira desenvolvida em atividades da auditoria e consultoria organizacional, Cristina ingressou no Grupo em 2014, quando se deu início à implantação do sistema de conformidade. Desde então, tem se dedicado a pensar e implementar práticas mais íntegras, éticas e transparentes na empresa, sempre atreladas aos objetivos de negócio.

“Num primeiro momento, como ocorre em qualquer situação de mudança, pode existir um desconforto entre as pessoas. Sempre haverá alguém que dirá: ‘eu não vou conseguir fazer negócios’. Mas isso não é verdade. Em realidade, a empresa passa a ter oportunidades de fazer negócios com mais qualidade, com mais segurança, com mais transparência”, explica.

Por que a Conformidade interessa às empresas?

Vivemos o reflexo de uma evolução na sociedade em relação ao que se espera de condutas de negócio . Com a facilidade do acesso à informação, questiona-se mais, cobram-se comportamentos que antes talvez não fossem tão cobrados. Não se toleram mais atos indevidos, atos ilícitos, corrupção, porque existe uma consciência maior dos danos que isso traz, como a desigualdade social e o desequilíbrio de competitividade nos mercados.

Portanto, a Conformidade é interessante para o ambiente de negócios porque traz mais competitividade, mais segurança, mais estabilidade nas relações comerciais. Estamos falando de uma evolução do modo de fazer negócios, não é um processo particular de uma ou outra empresa. Mais cedo ou mais tarde, toda empresa vai passar por essa transição.

E por que não ouvíamos falar em Conformidade antes?

Conformidade é um tema novo. Ele surge como preocupação na década de 70, mas ganha relevância mais recentemente, a partir dos anos 2000, por uma série de fatos que aconteceram no mundo e causaram reflexões. No Brasil, esse tema passa a ser mais falado em 2014, após a entrada em vigor da Lei da Empresa Limpa, aprovada em 2013.

Até então, as empresas que já dispunham de sistemas de conformidade estruturados eram, em geral, vinculadas a empresas estrangeiras. Ou seja, é algo muito recente. As empresas brasileiras estão começando nesse processo, é uma fase inicial de implantação e de entendimento.

Como se dá a criação e a implementação de um sistema de conformidade em uma empresa?

Para se criar um sistema que seja verdadeiro, efetivo, primeiro é preciso entender a característica de cada negócio, porque não existe um pacote pronto. Há uma referência teórica, mas é preciso pensar o processo que faz sentido para cada empresa, considerando o ambiente de riscos e a prática de cada uma delas. E só é possível fazer isso com sucesso se a operação for conhecida, saber como as decisões são tomadas e viver no dia a dia os desafios da empresa. Assim é desenhado um processo que seja possível de embutir no dia a dia das pessoas.

E o papel da equipe de conformidade é entender o processo e pensar como integrar as novas práticas de uma forma que não prejudique a execução do trabalho, mas também mitigue os riscos a que a empresa está exposta. Sempre com o cuidado de não ir para extremos, porque não se deve paralisar a empresa por conta desse processo. Equilíbrio é a chave para o sucesso da implantação de sistemas de conformidade.

Qual é o segredo para a criação de um sistema de conformidade que de fato mude a forma da empresa trabalhar?

Tudo parte de um marco formal, mas isso será apenas um fundamento se as práticas não estiverem absorvidas de forma sistêmica na rotina das pessoas, em seu processo decisório. O desafio é transformar isso tudo em um hábito das pessoas, alcançar o engajamento de várias áreas. O sucesso vem do engajamento, especialmente dos líderes de negócios, porque são eles os responsáveis por colocar os processos em prática e zelar pela divulgação e manutenção no dia a dia com suas equipes.

Um dos pontos que se avalia para entender o sucesso de um sistema conformidade é o acesso que a equipe de conformidade tem aos líderes, porque esse diálogo tem que acontecer. Se a equipe de conformidade estiver apartada do negócio, não será capaz de perceber os desafios de negócio e se tornará mera burocracia; e não é esse o objetivo.

Como esses novos processos e práticas interferem na cultura da empresa?

Não estamos falando em implementar uma nova cultura na empresa. As empresas que conseguem dar a volta são justamente as que têm uma cultura definida e que evoluem em seus processos. É a base da sua cultura que cria sustentação para a transformação.
Por exemplo, existe uma referência interna de cultura aqui no grupo Odebrecht que é muito forte e que já traz princípios e valores que valorizam a condute ética, íntegra e transparente.

Nesse contexto, o Sistema de Conformidade atua no resgate de uma essência que sempre existiu, criando práticas para que previnam o desvio de conduta e, ao mesmo tempo, permitam sua detecção e remediação, caso ocorra.

E como esse processo termina?

O objetivo de todo Sistema de Conformidade é criar processos mais seguros que permitam a tomada de decisão com mais objetividade, confiança e qualidade. Portanto, é um processo que não termina. O mundo está mudando constantemente, as empresas precisam se adequar e, junto com ela, seu sistema de conformidade.

Aqui na Odebrecht, por exemplo, estamos tendo hoje uma grande concentração de energia para colocar novas práticas em vigor, mas isso não vai acabar. Ano que vem teremos que continuar de olho e acompanhar os cenários, interno e externo, como o surgimento de uma evolução tecnológica que traga mais agilidade a um processo ou um novo marco legal. Muitos fatores influenciam e provocam essa necessidade constante de adaptação e atualização.

Como está sendo esse processo de adaptação para a Odebrecht?

Se olharmos retrospectivamente numa curta linha do tempo, o que a Odebrecht fez nos últimos 18 meses é de um avanço incrível. Em um ano e meio conseguimos colocar em prática um Sistema de Conformidade relevante, com a implantação de novos controles e procedimentos num universo de nove empresas e milhares de integrantes.

Nosso objetivo é ter um sistema vivo, incorporado ao nosso dia a dia. Os programas de sucesso são aqueles em que as pessoas estão verdadeiramente engajadas, não é uma equipe ou um departamento isoladamente que será capaz de resolver os dilemas que as pessoas enfrentam em suas atividades diárias.

E como isso impacta na relação com parceiros e outras empresas?

Ninguém faz negócios sozinho. Quando eu decido fazer negócios com você, nós estamos partilhando responsabilidade. Por isso, o papel da Odebrecht nesse contexto é também transformacional. A partir do momento que entendemos o valor da Conformidade e colocamos nossa prática para funcionar, acabamos alcançando também quem está vinculado à nossa cadeia de valor.

Uma indústria como a de Engenharia e Construção, por exemplo, alcança indiretamente uma rede de negócios muito grande e essa rede toda vai será impactada. Isso porque, para fazer negócios conosco, essas empresas terão que passar por critérios de avaliação. Isso naturalmente eleva o nível de consciência e os padrões de qualidade e integridade nas outras empresas.





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